Link original: http://www.sistemas.febnet.org.br/reformadoronline/pagina/?id=336
Autor: Antonio Cesar Perri de Carvalho

A Revista Reformador surgiu em 21 de janeiro de 1883, fundada pelo imigrante português Augusto Elias da Silva (1848-1903).1 As primeiras edições foram em formato de jornal, com quatro páginas, periodicidade quinzenal, preparadas com recursos próprios de seu fundador e situando a redação e oficinas em seu atelier fotográfico, na rua da Carioca, 120, 2o andar, na cidade do Rio de Janeiro.

O novel periódico tinha como subtítulo Órgão Evolucionista. Na apresentação, o fundador explicita os objetivos do mesmo:

Abre caminho, saudando os homens do presente, que também o foram do passado e ainda hão de ser os do futuro, mais um batalhador da paz: – o Reformador.

Em outro trecho comenta: Ao Espiritismo estava reservado o papel difícil, mas, por isso mesmo glorioso de estabelecer – a aliança da ciência e da religião. A doutrina espírita muda inteiramente a maneira de encarar o futuro. […] Ergueu-se o véu; o mundo espiritual nos aparece em toda sua realidade prática. […]2

Ainda na página primeira, inicia-se a seção “Folhetim”, que continua na página seguinte, preenchendo- a com resenha do livro, de origem francesa, de fundo religioso, intitulado O Quarto da Avó ou A felicidade na família, de Mademoiselle Monniot, e trechos do Boletim do Grande Oriente do Brasil, do Diário Oficial, do Jornal do Comércio, de outros periódicos leigos e da Revista da Sociedade Acadêmica.3 Trata- -se da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, a primeira Instituição Espírita frequentada por Augusto Elias da Silva, quando procurou o Espiritismo. 1

A terceira página é composta pela “Seção Eclética”:

[…] consagrada a todas as corporações científicas, filosóficas e literárias, às quais se remeterá gratuitamente este jornal [para] se comunicarem [as] que desejam possuí-lo e colecioná- lo.4

Em outra nota, é apresentada a seção “Espiritismo”:

[…] criamos esta seção especialmente para as Sociedades e Grupos Espíritas que funcionam no Brasil, nas mesmas condições da oferta feita às outras corporações.4

Em outra seção “Notícias e Avisos”, é aberto o espaço para informações gerais. São consideradas “seções livres de Reformador as seguintes: Seção Eclética, Espiritismo, Notícias e Avisos e Anúncios”.3 Notícia muito interessante é veiculada na seção “Notícias e Avisos”, sobre a União Espiritualista Universal, referente à reunião ocorrida em Bruxelas (Bélgica), no dia 24 de setembro de 1882:

Movidos pela ideia iniciada pela União Espiritualista em Liège, muitos Grupos e Sociedades Espíritas de diversos Estados, incluindo os da União Espírita do Brasil, manifestaram a adesão à ideia da União Espiritualista Universal. […] Os Grupos de França fizeram- -se representar pelo Sr. P. G. Leymarie. […] Ficou determinado que na próxima Assembleia que terá lugar em Fevereiro, se estudará o melhor meio de se federar os Grupos Espíritas de todo o mundo.4

Esclarecemos que a citada União Espírita do Brasil foi presidida por Elias, em 1893, e por Bezerra de Menezes, em 1889.1

Há também informação sobre a reconstituição legal do Grande Oriente do Brasil e sobre a nova Sociedade Espírita, fundada em Liège (Bélgica).

A última página, dedicada aos “Anúncios”, contém várias propagandas, como fábrica de chapéus e comércio em geral: de calçados e de couros, de especialidades para a casa, chapelaria, padaria, tipografia, relojoaria e bijuteria, águas gasosas, farmácia, alfaiataria, de café e de móveis. Entre estas há uma sobre livros, com notícia a respeito da Livraria da Sociedade Acadêmica – já citada acima –, localizada na rua da Alfândega, 120, sobrado, anunciando: Obras fundamentais do Espiritismo, Revista Espírita, busto e retrato de Allan Kardec, e outros. Informam que “aceitam-se encomendas de livros; as obras Espiríticas expedem-se para qualquer localidade sem aumento de preço e livre de despesa para o comprador”.5

Na edição inaugural, Reformador estampa esclarecimento sobre os princípios da Doutrina Espírita, destaca notícia a respeito dos esforços iniciais, em nível internacional, da união dos espíritas, e, na apresentação inicial e anúncios, destaca a difusão do Espiritismo e dos livros espíritas.

Assim nascia Reformador que, nesses 130 anos de circulação ininterrupta, mantém uma marca histórica, pois são raríssimos os periódicos brasileiros que sobreviveram, por tempo tão longo, com periodicidade regular. Fato digno de nota é que, dois meses depois, na edição especial do dia 31 de março de 1883, n. 6, Reformador dedicou-se inteiramente a Allan Kardec, designando-o “Fundador da Ciência Espírita” e estampou em sua página inicial o lema: “Sem caridade não há salvação”.

No final do mesmo ano, Augusto Elias da Silva liderou o processo de fundação da FEB. O entusiasta idealista deixa clara a sua expectativa com a divulgação, ao referir que

Acha-se em via de organização a Federação Espírita Brasileira. Fitando o largo horizonte da propaganda escrita, acreditamos que prestará serviços da máxima importância para a vulgarização dos princípios filosóficos do Espiritismo.6

O intimorato pioneiro foi protagonista de episódios históricos do Movimento Espírita nacional, como a fundação de grupos espíritas pioneiros, a criação desta Revista e a fundação da Federação Espírita Brasileira, integrando sua primeira diretoria, como tesoureiro,1 a qual, então, decidiu absorver o então jornal como seu órgão oficial.

Da homenagem a seu fundador, prestada por Reformador na seção “Apologética”, na edição de 1o de janeiro de 1904, destacamos:

[…] A fé que depositava no futuro da causa que em boa hora esposara rivalizava com o desassombro em sustentar as suas convicções. A elas, durante muitos anos, sacrificou os seus interesses pessoais, as suas comodidades, não tendo senão uma ambição: ver prosperar, com a nossa sociedade, a doutrina que lhe dera origem.7

1 WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. p. 169 a 197.
2 REFORMADOR. Ano 1, n. 1, 21 de janeiro de 1883, p. 1.
3 ______. ______. p. 2.
4 ______. ______. p. 3.
5 ______. ______. p. 4.
6 ______. Ano 2, n. 26, 1º de janeiro de 1884, p. 3.
7 ______. Ano 22, n. 1, 1º de janeiro de 1904, p. 10.

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